Mães de crianças atendidas pelo Teamarr criticam uso político do autismo: 'lutamos por direitos'

Escrito em 08/07/2026


Mães de crianças autistas acolhidos pelo Teamarr voltaram à frente da Assembleia Legislativa nesta quarta (8). g1 RR Mães de pacientes do Centro de Acolhimento ao Autista (Teamarr) voltaram a protestar em frente à Assembleia Legislativa de Roraima (Ale-RR) nesta quarta-feira (8). Elas criticam a transformação do programa em uma disputa política e temem os prejuízos com a troca de terapeutas sem aviso. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp A ex-assistente social Rozilda Penha largou a profissão para cuidar do filho, paciente do programa há dois anos. Uma vez por semana, ela viaja do município de Iracema, no interior do estado, até a capital para garantir a terapia da criança pelo Teamarr. "Nós não viemos por briga política ou para levantar bandeira. Nós lutamos por políticas públicas e direitos aos nossos filhos", desabafou Rozilda. Ela contesta o argumento de reestruturação usado pela gestão da Casa para esvaziar o prédio do Teamarr no bairro São Francisco. "Reestruturação é abrir polos, contratar mais profissionais e estender o serviço ao interior", completou. A autônoma Danyele Cardoso, mãe de um paciente de 12 anos, soube do esvaziamento do prédio pelas redes sociais. Para ela, a queixa principal é a perda do vínculo com a equipe atual, pois o cenário desconhecido assusta e causa dor às crianças. "A gente não quer novos profissionais, isso atrapalha. Em vez de evoluir, eles vão retrair. Sabemos da briga política, mas o que nós e os nossos filhos temos a ver com isso?", questionou a autônoma. A maior preocupação das famílias envolve a substituição dos terapeutas. A quebra de rotina para crianças autistas causa sofrimento e regressos severos no tratamento. "Em vez de evoluir, eles vão retrair", explicou Danyele. A manicure Jhennifer Souza, mãe de um paciente de 14 anos, diagnosticado com autismo desde os 3, reforçou a dificuldade de adaptação a novos rostos. "Tudo operava de forma correta. O apelo é simples: devolvam os profissionais e deixem tudo como antes. Não havia necessidade de mudança", pediu Jhennifer. O Teamarr atende de forma gratuita ao menos 750 famílias. A iniciativa oferta terapias para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e beneficia mais de mil crianças e adolescentes no estado. Impasse político A incerteza das famílias ocorre em meio a um impasse sobre quem determinou o esvaziamento do prédio na segunda-feira (6). A Ale-RR publicou uma nota oficial para responsabilizar a deputada Angela Águida Portella (PP), responsável pelo projeto até então, pela ordem de retirada dos materiais. A deputada, por sua vez, divulgou um comunicado onde afirmou ter recebido a notícia com surpresa e por telefone. Já a Superintendente de Projetos Especiais da Ale-RR, Marília Pinto, trouxe uma terceira versão durante o primeiro encontro com os pais. Marília não soube explicar a origem da ordem, mas isentou o presidente da Casa, deputado Jorge Everton (União Brasil). "A determinação veio de alguém, mas não partiu do deputado Jorge Everton", declarou na ocasião. Centro de acolhimento a autistas é esvaziado após presidente da Assembleia ir ao prédio Espera por respostas O grupo buscou a Casa para expor as demandas nesta quarta-feira (8). Após mais de uma hora de espera, a portaria informou que os parlamentares não receberiam as mães e que uma reunião prevista para sexta-feira (10) não aconteceria, devido ao recesso parlamentar iniciado em 26 de junho. Minutos após a negativa da portaria, a Superintendente de Comunicação da Ale-RR, Ana Caroline Maduro, foi ao encontro das famílias. Ela negou a informação inicial e confirmou que a reunião de sexta-feira está mantida e ocorrerá no Plenarinho da Casa, às 11h. Superintendente de Comunicação da Ale-RR comunicou mães sobre reunião marcada para sexta-feira, 10 de julho. g1 RR O que aconteceu? A saída de servidores e a retirada de materiais usados no atendimento a crianças e adolescentes ocorreu nesta segunda-feira (6), após ida de uma comitiva liderada pelo presidente da Ale-RR ao local e anunciar mudança na gestão do programa. A medida ocorreu dias após a exoneração dos servidores comissionados da Casa. Eles deixaram o prédio e retiraram materiais usados nos atendimentos. Procurada, a Ale-RR não respondeu sobre as atividades realizadas no prédio, sobre a restrição de entrada e o que está sendo dito aos pais sobre a continuidade nos atendimentos até a última atualização desta reportagem. Na tarde de segunda-feira (6), mães de pacientes atendidos pelo Teamarr protestaram em frente à Ale-RR contra as mudanças. Elas afirmam que a interrupção dos serviços compromete o tratamento dos filhos, que já criaram vínculo com os terapeutas. Porta do prédio do Teamarr, no bairro São Francisco, estava trancada e com acesso restrito nesta terça (7). g1 RR Porta trancada Nesta terça-feira (7), a reportagem encontrou a unidade trancada. Apenas um segurança atendeu a equipe e informou que a entrada não estava autorizada. Uma arquiteta fazia adequações nas salas. O g1 apurou que os servidores, que seguem exonerados, não haviam sido informados sobre a possibilidade de haver obras durante o recesso escolar deste ano. Mães cobraram explicações sobre funcionamento do Teamarr em frente a Assembleia Legislativa de Roraima Tiago Côrtes/g1 RR Reunião com superintendente Durante o protesto das mães na segunda-feira, a superintendente Marília Pinto organizou uma reunião e chamou o grupo ao plenário. Sobre os materiais retirados do Centro, a médica afirmou que a decisão partiu dos próprios funcionários. "Se os equipamentos são pessoais, aqueles servidores que entenderam que não iriam permanecer levaram os seus materiais", justificou. Em nota à Rede Amazônica, a Ale-RR informou que realiza "levantamento patrimonial" dos bens que estavam à disposição do programa, e que somente após esse estudo, será possível identificar quais itens pertencem ao patrimônio público e quais são de propriedade particular. A superintendente garantiu o retorno das atividades para o dia 27 de julho. Ela também defendeu que a Ale-RR pretende recontratar os servidores exonerados. Procurado, o presidente da Casa não respondeu aos questionamentos do g1 até a última atualização desta reportagem. Materiais usados no atendimento de crianças e adolescentes com autismo foram retirados do prédio Lucimar Sobral/g1 RR Salas esvaziadas O g1 acompanhou parte da desocupação do prédio nesta segunda e registrou quando profissionais esvaziaram salas, armários, retiraram brinquedos, materiais lúdicos e equipamentos utilizados nos atendimentos. Nenhum servidor que estava no local quis falar com a reportagem. A reportagem apurou que a equipe do presidente chegou por volta das 8h e informou que haveria uma mudança na gestão do Centro e que por isso todos os exonerados deveriam se retirar com os materiais. Policiais militares que atuam na Ale-RR acompanharam a ação. Em nota, a Ale-RR negou que a iniciativa de esvaziar a unidade tenha partido direto do presidente e atribuiu à uma "determinação foi adotada pela deputada Ângela Portella" (leia a nota na íntegra da reportagem). Procurada, Ângela não se manifestou sobre a nota enviada pela assessoria de Jorge Everton. A Casa afirmou ainda que houve um planejamento previamente definido e que o programa entra em recesso nesta segunda, em razão do período de férias escolares. "Nesse mesmo intervalo, será realizada uma reorganização do programada na unidade, com duração aproximada de 20 dias, visando melhorar a estrutura e oferecer ainda mais qualidade no atendimento". Durante a desocupação, servidores recolheram pertences pessoais e materiais utilizados nos atendimentos que haviam sido adquiridos por eles mesmos para auxiliar nas atividades no Centro. Muitos dos produtos foram colocados em sacos de lixo. A mãe de um paciente atendido chorou ao chegar na unidade durante a retirada dos equipamentos. A deputada Angella esteve na unidade local durante a desocupação, mas não quis falar sobre o assunto. Nota da íntegra da Ale-RR "A Assembleia Legislativa de Roraima esclarece que são improcedentes as alegações de que haja qualquer iniciativa para esvaziar, encerrar ou prejudicar o funcionamento do Programa TEAMARR. O TEAMARR é um programa institucional da Assembleia Legislativa, criado para oferecer atendimento especializado a crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e apoio às suas famílias. Trata-se de uma política pública consolidada, que representa uma das maiores iniciativas do Estado voltadas a esse público. Conforme planejamento previamente definido, o programa entra em recesso nesta segunda-feira, dia 6 de julho, em razão do período de férias escolares. Nesse mesmo intervalo, será realizada uma reorganização programada na unidade, com duração aproximada de 20 dias, visando melhorar a estrutura e oferecer ainda mais qualidade no atendimento. A Assembleia também esclarece que a orientação para a retirada de servidores, objetos e equipamentos das dependências da unidade não partiu da Presidência da Casa. Essa determinação foi adotada pela deputada Ângela Portella e o presidente da Assembleia, Jorge Everton, esteve no local para averiguar pessoalmente a situação. O compromisso da Assembleia Legislativa permanece o mesmo: assegurar a continuidade e o fortalecimento do TEAMARR. Atualmente, o TEAMARR atende cerca de 1400 crianças e adolescentes em duas unidades, no bairro São Francisco e no Jardim Tropical. A Assembleia Legislativa lamenta que informações sem fundamento gerem insegurança entre as famílias atendidas por um programa de tamanha relevância social. O compromisso da instituição é com a continuidade dos serviços, a transparência e o cuidado com quem depende desse atendimento." Nota na íntegra Ângella Águida Portella "Na manhã de hoje, fui surpreendida com uma ligação informando que havia uma comitiva da Assembleia Legislativa de Roraima no TEAMARR. Imediatamente, dirigi-me à unidade do Bairro São Francisco, onde fui comunicada que o Centro de Atendimento ao Autista passaria a ter uma nova administração. O TEAMARR é muito mais do que uma política pública. Ele nasceu de um propósito de vida, da minha experiência enquanto avó de uma criança autista com nível 3 de suporte. Assim nasceu meu compromisso de transformar essa vivência em acolhimento para outras famílias atendidas no programa Teamarr, que hoje é uma referência nacional de atendimento. O autismo nunca foi apenas uma bandeira. É uma missão de vida. E não medirei esforços para que a pauta seja tratada com responsabilidade e prioridade e não com uma mera disputa política eleitoral. Ao longo dessa trajetória, expandimos o projeto para duas unidades e oferecemos muito mais do que atendimentos especializados: construímos um espaço de acolhimento, orientação, respeito e esperança às famílias. Esclareço ainda que boa parte dos materiais utilizados diariamente no atendimento às crianças, adolescentes e às famílias pertencem aos próprios colaboradores. Com a saída dos servidores foi necessária a devolução desses itens. Neste momento, reafirmo compromisso com as inúmeras famílias que confiam e acreditam em nosso trabalho. Estou buscando alternativas para em breve podermos continuar nosso trabalho." Teamarr se encontra fechado: Teamarr é encontrado fechado após esvaziamento de servidores e materiais em Boa Vista Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.
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