R$ 442 mil em dinheiro e R$ 1,6 milhão em mansão: as movimentações suspeitas de delegado preso em MS

Escrito em 20/10/2026


PIX, blindagem e sistemas de inteligência: como policiais suspeitos estruturaram desvio de Apontado como peça central de um suposto esquema de desvio de drogas apreendidas pela polícia e revendidas ao tráfico, o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa movimentou ao menos R$ 442.652 em valores considerados suspeitos pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), segundo relatório da Operação Infiltrados. A investigação também questiona a origem dos recursos usados na construção de um imóvel de alto padrão em um condomínio de luxo de Campo Grande. Conforme o relatório, os gastos com a residência chegaram a cerca de R$ 1,6 milhão. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp O g1 MS teve acesso ao documento do Gaeco, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que embasa a operação responsável pela prisão do delegado e de outros investigados em 24 de setembro. Procurado, o advogado José Roberto Rodrigues da Rosa informou que está analisando o processo e que não havia solicitado a liberdade do cliente até o momento. Delegado da Polícia Civil, Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa. Adepol MS Movimentações financeiras sob suspeita Segundo o relatório, o Gaeco identificou uma expressiva incompatibilidade entre a renda declarada pelo delegado, as movimentações financeiras e o patrimônio associado a ele. Os investigadores apontaram R$ 442.652 em operações consideradas suspeitas, distribuídas em três categorias: Depósitos em dinheiro na conta pessoal: R$ 328.510, recebidos em 32 lançamentos em espécie. Entre eles, os investigadores destacaram um depósito de R$ 276 mil, realizado em 11 de março de 2024, do qual parte teria sido sacada no mesmo dia. Transferências via Pix de suspeito de integrar o esquema: R$ 5.900, recebidos em três operações bancárias de Neverson Vieira de Araújo, apontado pela investigação como responsável por cooptar intermediários. Depósitos na conta da esposa: R$ 108.242, identificados em 80 operações em dinheiro. O relatório também analisa declarações fiscais e a evolução patrimonial do delegado. Segundo o documento, em 2023, após vários anos de atuação na polícia, Hoffman declarava patrimônio de aproximadamente R$ 100 mil. A declaração de Imposto de Renda referente ao exercício de 2026, ano-calendário de 2025, também foi utilizada pelos investigadores na análise financeira. Imóvel de luxo sob investigação Outro ponto destacado pelo Gaeco são os gastos com a construção da residência de alto padrão em Campo Grande. De acordo com o relatório, o custo total teria chegado a cerca de R$ 1,6 milhão. Desse montante, mais de R$ 1,2 milhão aparece em uma planilha de controle de materiais e acabamentos apreendida durante a investigação. Para os investigadores, os valores chamam a atenção diante da renda declarada pelo delegado. O relatório ressalta que a comparação é conservadora, pois não inclui todos os custos estruturais da construção nem as despesas habituais de subsistência do casal. A investigação também identificou três transferências via Pix de R$ 25 mil cada, totalizando R$ 75 mil, feitas pelo delegado para uma empresa administrada pelo investigador de Polícia Civil Douglas Tobias. Segundo o Gaeco, a empresa teria sido utilizada para a lavagem de dinheiro da organização criminosa. Movimentação financeira de outros policiais O relatório também detalha movimentações financeiras e a suposta participação de outros agentes de segurança no esquema investigado. Douglas Tobias, investigador da Polícia Civil: Segundo o Gaeco, o investigador realizou 152 depósitos em dinheiro considerados suspeitos em sua conta pessoal, que somaram R$ 350.485. A conta empresarial de uma loja de móveis vinculada a ele recebeu outros 151 depósitos considerados atípicos, no total de R$ 151.643,50, além dos R$ 75 mil transferidos pelo delegado Hoffman. Somados, os créditos considerados suspeitos ultrapassam R$ 500 mil. Os investigadores também apontaram possível incompatibilidade patrimonial. Entre os bens associados ao investigador estão uma residência avaliada em cerca de R$ 4 milhões e um Ford Mustang Shelby GT500 estimado em R$ 370 mil. Nilton Cesar Sales dos Santos, investigador da Polícia Civil: Conforme a investigação, Nilton disponibilizava equipamentos de rastreamento por GPS, conhecidos como “carrapatos”, para monitorar veículos e locais onde drogas eram armazenadas. Um dos dispositivos aparecia nos sistemas com a identificação “NILTON DERF”. Interceptações telefônicas citadas no relatório indicam que as operações de desvio de entorpecentes poderiam render pagamentos de R$ 50 mil a R$ 60 mil para cada policial envolvido em uma ação bem-sucedida. Thiago Bezerra Laurentino, conhecido como “Grandão”, e Alison Lemes Bezerra, o “Daga”: Os dois policiais militares são apontados pela investigação como responsáveis por participar de interceptações e abordagens a caminhões e outros veículos utilizados no transporte de drogas. Segundo o relatório, enquanto os agentes realizavam as abordagens, comparsas de Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, retiravam parte dos entorpecentes transportados. Áudios interceptados durante a investigação também foram citados como indícios de recolhimento de propina em dinheiro vivo decorrente do desvio das cargas. Outros servidores investigados O relatório também aponta a participação de outros agentes públicos: Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos, policial penal: teria realizado consultas irregulares no sistema SIGO para auxiliar os monitoramentos do grupo. Augusto Torres Galvão Florindo e Marcos André Santos Chaves, policiais civis: são apontados como suspeitos de participar do desvio de drogas apreendidas que, segundo a investigação, não eram registradas nos boletins de ocorrência oficiais. Como funcionaria o esquema investigado A investigação aponta que o suspeito de tráfico, Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, como um dos articuladores da organização. Os investigadores também encontraram conversas sobre pagamentos a agentes por cocaína, fotos de dinheiro e drogas e negociações envolvendo entorpecentes apreendidos. O advogado Tiago Bunnig, que defende Lucas e os familiares dele, também presos na operação, disse à época das priões que não vai se pronunciar. Os investigadores também encontraram conversas sobre pagamentos a agentes por cocaína, fotos de dinheiro e drogas e negociações envolvendo entorpecentes apreendidos. Segundo o relatório, intermediários ligados ao tráfico monitoravam carregamentos de drogas e rotas utilizadas por grupos rivais para obter informações sobre datas, veículos e trajetos. O esquema teria utilizado equipamentos de rastreamento por GPS, conhecidos como “carrapatos”, drones e consultas a sistemas restritos de inteligência, como o SIGO e o Córtex. Com as informações, policiais suspeitos de integrar o grupo realizariam interceptações e abordagens a veículos que transportavam entorpecentes. Parte da carga seria registrada como apreendida oficialmente, enquanto o restante seria desviado para abastecer o mercado ilegal. Conforme o grupo do MP, o grupo tinha funções divididas: Alguns integrantes levantavam informações sobre carregamentos; Policiais rastreavam e apreendiam as drogas; Outros recebiam e revendiam o material desviado; E havia ainda quem movimentasse o dinheiro. Policiais investigados pelo Gaeco Reprodução/Redes sociais LEIA TAMBÉM Infiltrados: delegado e outros 7 policiais são afastados após prisões em operação que investiga desvio de cocaína em MS ‘Delegado de elite’ que combatia tráfico é preso suspeito de desviar cocaína usando o próprio cargo Comparsa de policiais, mãe, esposa e irmãs são presos por desviar drogas apreendidas pela polícia Ex-policial demitido por contrabando de vapes é alvo de operação que investiga desvio de cocaína Dinheiro de traficante chegou a policial O Gaeco aponta LK como a ligação entre policiais e traficantes. Segundo a investigação, ele repassava informações sobre carregamentos, articulava a atuação dos agentes, negociava a parcela da droga que ficaria com o grupo e administrava a venda do entorpecente desviado. Ele ainda articulava a atuação dos policiais, repassava informações sobre carregamentos, negociava a parte da droga desviada que ficaria com o grupo e cuidava da comercialização. Dados bancários obtidos com autorização judicial mostram que LK transferiu dinheiro diretamente para Neverson Vieira de Araújo, policial civil que o Gaeco inclui no núcleo operacional do esquema. Os investigadores identificaram três transferências, que somaram R$ 3 mil. Neverson também aparece em uma apreensão usada pelo Gaeco para mostrar a relação entre policiais e traficantes. Policiais rastreavam, apreendiam e repassavam drogas O Gaeco coloca no núcleo operacional os policiais civis Augusto Torres Galvão Florindo, Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves, Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva. Também integram esse núcleo, segundo a investigação, os policiais militares Alison Lemes Bezerra, o Daga ou Daguinha, e Thiago Bezerra Laurentino, o Grande ou Grandão, além do policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos. O MP atribui ao grupo o “rastreamento, apreensão e posterior repasse da droga aos traficantes vinculados ao grupo”. A investigação também aponta que agentes usavam sistemas restritos de inteligência para fazer consultas a pedido de traficantes. Com acessos funcionais, policiais checavam placas e levantavam informações usadas pelo grupo. Presos na operação O Gaeco pediu a prisão preventiva de 26 pessoas. Segundo o Gaeco, os agentes que deveriam retirar drogas de circulação teriam assumido o papel oposto. O órgão afirma que eles se tornaram “verdadeiros fornecedores para o tráfico”. O que diz a Sejusp ""A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informa que a Operação “Infiltrados”, deflagrada nesta quinta-feira (24) pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) juntamente com as Corregedorias da Polícia Civil e da Polícia Militar visa o cumprimento de mandados de busca e apreensão e prisão de investigados por tráfico de drogas e outros crimes. A operação envolve servidores das forças de segurança pública que já eram investigados pelas respectivas Corregedorias, sendo que três deles já haviam sido presos anteriormente e um inclusive exonerado recentemente. A Sejusp e as forças de segurança de Mato Grosso do Sul não compactuam com qualquer desvio de conduta ou prática ilícita por parte de seus integrantes. Eventuais desvios serão apurados com rigor, observando a legislação vigente, o devido processo legal e as garantias individuais dos investigados. A Secretaria reafirma seu compromisso com a legalidade, a máxima transparência e o fortalecimento dos mecanismos de controle e correição das instituições que a integram." Veja mais vídeos do Mato Grosso do Sul
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