'Tivemos que fazer rifa para pagar o tratamento da minha filha': como sistema de saúde do Paraguai leva pacientes a se endividarem

Escrito em 25/07/2026


A falta de equipamentos e medicamentos está entre as principais reclamações de médicos, pacientes e ativistas no Paraguai Plataforma pelo Direito à Saúde do Paraguai (PDS) Quando sua filha María del Pilar foi internada às pressas, a artesã Daniela Benítez, 62 anos, não teve outra opção a não ser percorrer as ruas de Assunção, no Paraguai, em busca de um respirador, uma cânula e até mesmo o algodão que a equipe médica precisava para atendê-la. A compra desses insumos e de parte dos equipamentos médicos ultrapassou US$ 800 (cerca de R$ 4.000), um valor que a família teve que pagar do próprio bolso. Sem recursos suficientes, eles organizaram um rifa. María del Pilar foi levada à emergência de um hospital público da capital paraguaia com sangramento pelo nariz e pela boca. Ela estava com pneumonia, provocada pela tuberculose — uma doença causada por uma bactéria que costuma afetar os pulmões. "O sistema de saúde no Paraguai está cada vez pior", afirma Daniela. Agora no g1 Os problemas no atendimento de sua filha, porém, não terminaram ali. À falta de insumos e equipamentos se somaram atrasos no atendimento e falhas administrativas. "Os hospitais têm poucos médicos, e os médicos não têm os insumos necessários para oferecer o atendimento adequado. Além disso, estão sobrecarregados pela grande quantidade de horas de trabalho que enfrentam", diz Daniela. Após passar um ano internada, María del Pilar morreu. O Paraguai está entre os países que menos investem em saúde pública na América Latina Getty Images/BBC 'Ele vendeu tudo' A história de Daniela é uma das muitas que refletem a crise do sistema de saúde paraguaio. Um problema que não é novo no país, mas que voltou a chamar a atenção internacional após o caso envolvendo o goleiro da seleção do Paraguai, Orlando Gill, durante a última Copa do Mundo. A mulher do jogador contou nas redes sociais que o marido precisou vender até mesmo o uniforme para pagar o tratamento médico do filho recém-nascido após um parto prematuro. "Ele vendeu tudo. Vendeu a camisa da seleção sub-20, não conseguiu guardá-la de lembrança. Vendeu suas roupas, suas chuteiras. Literalmente: vendeu tudo", contou Melissa Ávalos em uma publicação no Instagram. De acordo com a Anistia Internacional, o Paraguai está entre os países que menos destinam recursos do orçamento público à saúde por habitante. O investimento de 4% do PIB em saúde fica abaixo do mínimo de 6% recomendado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para garantir uma cobertura universal. "O Paraguai tem um dos sistemas de saúde mais injustos de toda a América Latina", afirma Patricia Lima, que faz parte da Associação Latino-Americana de Medicina Social (Alames) — uma organização civil que atua em defesa do direito à saúde e tem sede no país sul-americano. Para Gustavo Ortiz, diretor de Desenvolvimento de Serviços do Ministério da Saúde, as críticas ao sistema público de saúde estão relacionadas ao aumento da demanda por atendimento, um problema que, segundo ele, o governo está tentando resolver. Ainda assim, ele afirma que se tratam de episódios "pontuais" e não de um problema estrutural do sistema. "Temos problemas pontuais, denúncias pontuais, relacionadas ao fato de que o paciente recebe uma receita de um medicamento que precisa retirar na farmácia (do hospital) e, às vezes, o remédio está em falta", explica. Após as manifestações de outubro de 2025, médicos paraguaios voltarão a protestar em 24 de agosto, com uma greve nacional de cinco dias para reivindicar mais recursos para a saúde pública. 7 de cada 10 pessoas não têm seguro de saúde no Paraguai Getty Images O sistema de saúde do Paraguai O sistema de saúde do Paraguai conta com instituições públicas, privadas e mistas. De um lado, está o Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social, responsável por garantir o acesso universal e gratuito aos serviços de saúde. Os hospitais da rede pública atendem principalmente pessoas que não possuem plano de saúde. O desafio enfrentado por esse sistema é grande. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), quase 70% da população paraguaia não tem plano de saúde e depende da rede pública para receber atendimento. Do outro lado está o Instituto de Previdência Social (IPS), um órgão público autônomo responsável pela administração do sistema da previdência. O instituto é financiado pelas contribuições dos trabalhadores com vínculo formal de emprego. Os beneficiários do IPS são atendidos em unidades próprias e, em menor escala, em hospitais e clínicas privadas conveniadas. Além disso, o país conta com outros sistemas específicos de cobertura, como os destinados a militares, integrantes do Judiciário e policiais. Por último, está o setor privado, com seguradoras, hospitais e clínicas particulares. Mesmo quem possui plano de saúde privado também tem direito a atendimento na rede pública paraguaia. Familiares de pacientes internados improvisam camas com colchões nos corredores de um hospital do Instituto de Previdência Social (IPS), em Assunção Rossana González Um sistema fragmentado "O sistema de saúde paraguaio é totalmente fragmentado", afirma a médica Rossana González, do Sindicato dos Médicos do Paraguai. Segundo González, muitas vezes se fala em sistema de saúde, "mas ele não existe como tal, porque os serviços não são integrados, não trabalham de forma coordenada e, em muitos casos, acabam duplicando gastos e orçamento". Longe de Assunção, as deficiências da rede de saúde ficam ainda mais evidentes. Nas áreas rurais do país, mais de 82% da população não possui plano de saúde. É o caso de Daniela, que pertence ao povo indígena Nivaclé, localizado no Chaco paraguaio, a cerca de 600 quilômetros de Assunção, próximo à fronteira com a Argentina. Daniel Ortiz, representante do Ministério da Saúde do Paraguai, afirma que o atendimento fora da capital "melhorou muito em relação aos anos anteriores, quando estava bastante concentrado na região metropolitana". "Estamos trabalhando para descentralizar a assistência médica", disse. Contudo, Daniela Benítez diz ser grata por estar em Assunção — e não no Chaco — quando a filha precisou ser internada. "Se eu estivesse no Chaco, minha filha não teria chegado viva ao hospital", afirma. 'Questão pendente' Santiago Peña reconhece que a saúde continua sendo um dos principais desafios do país EPA O presidente do Paraguai, Santiago Peña, reconheceu em seu relatório anual de gestão deste ano que a saúde pública continua sendo o principal desafio de seu governo, apesar dos investimentos em construção de hospitais que estão em andamento. "Na saúde, quero falar com a mesma franqueza com que sempre falo: esse é a nossa grande questão pendente. Sou o primeiro a reconhecer isso", disse Peña ao apresentar, no início de julho, seu relatório ao Congresso. "Enquanto houver um paraguaio sem receber atendimento médico, estarei insatisfeito", acrescentou. O governo, que anunciou investimentos superiores a US$ 500 milhões no setor, bsuca, por meio do programa Paraguai Saudável, reformar hospitais, ampliar a frota de ambulâncias, melhorar os equipamentos médicos e digitalizar os prontuários e informações do sistema de saúde. Para especialistas da área, no entanto, essas medidas não são suficientes para resolver a falta de medicamentos e de outros insumos, nem a sobrecarga enfrentada pelos profissionais de saúde. Segundo o Sindicato dos Médicos do Paraguai, embora o orçamento tenha aumentado, esses recursos não resultaram em reajustes salariais compatíveis com a inflação nem em melhorias nas condições de trabalho da categoria. "Estamos reivindicando um salário compatível com nossa preparação, nossa formação e também com os riscos que enfrentamos hoje dentro do sistema público", afirma Rossana González. A situação da saúde pública no Paraguai contrasta com o bom desempenho da economia do país, que encerrou 2025 com crescimento de 6,6% do PIB, quase o triplo da média da América Latina. Os problemas do sistema de saúde do Paraguai não são novos, mas voltaram a ganhar visibilidade Getty Images/BBC Apesar disso, o Paraguai está entre os países latino-americanos que menos destinam recursos à saúde, com gasto público equivalente a 4,1% do PIB, bem abaixo dos países vizinhos. Segundo o Relatório de Imunização nas Américas 2025, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o Uruguai lidera a região em gasto público com saúde, destinando 6,3% do PIB ao setor, enquanto a Argentina investe 5,8%. A diferença fica ainda mais evidente ao ser comparada com a Argentina. Enquanto 35% da população argentina não possui plano de saúde, no Paraguai a parcela de pessoas que depende exclusivamente do sistema público é quase o dobro. O Ministério da Saúde afirma que existe um "descompasso do Paraguai em relação à região" no que diz respeito aos investimentos, mas diz que o problema não está no baixo percentual destinado ao orçamento da saúde, e sim nos mecanismos de gestão desses recursos. Diante das dificuldades enfrentadas pelo sistema de saúde paraguaio, alguns pacientes optam por buscar atendimento em países vizinhos, recorrendo aos hospitais públicos desses locais. "Agradeço muito à Argentina por abrir as portas aos pacientes da minha comunidade, em um gesto de solidariedade", diz Daniela, referindo-se ao atendimento de saúde oferecido pela província de Formosa, na fronteira com o Paraguai. Essa realidade começou a mudar em maio de 2025, quando o governo do presidente argentino, Javier Milei, implementou restrições ao acesso de estrangeiros sem residência permanente aos serviços de saúde do país. Para Patricia Lima, da Alames, por trás dessas dificuldades existe "muito sofrimento" causado pela impossibilidade de acesso tanto a tratamentos básicos quanto a procedimentos mais complexos ou de maior demanda. Baixos impostos, baixo investimento O Paraguai é conhecido internacionalmente pela baixa carga tributária. É justamente seu sistema de impostos, marcado pela conhecida regra do "10-10-10", que transformou o país em um destino atraente para investidores de diferentes partes do mundo. Essa fórmula se refere ao fato de que os três principais impostos — o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), o imposto de renda da pessoa física e o imposto de renda empresarial — têm a mesma alíquota de 10%. Esse modelo faz com que a carga tributária do Paraguai seja a segunda mais baixa da América Latina, atrás apenas do Panamá, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Por isso, em meio à crise do sistema de saúde, o modelo tributário do país voltou a ser questionado, com debates sobre se uma maior arrecadação poderia contribuir para melhorar o financiamento da saúde pública e reverter sua deterioração. Contudo, não há uma solução simples. A representante do Sindicato dos Médicos do Paraguai afirma que o tema é muito sensível para a população, já que o aumento de impostos não garante, por si só, uma melhora direta na qualidade do atendimento de saúde. "Acredito que nenhum paraguaio se recusaria a pagar mais impostos se isso realmente garantisse atendimento médico. Mas nosso maior problema é a corrupção", afirma González. Para González, no Paraguai "existe uma resistência aos impostos porque sabemos que esses recursos necessariamente não serão destinados a melhorar a situação". "No fim, podemos acabar na mesma situação: com hospitais sem medicamentos, sem equipamentos e sem leitos, mas ainda mais empobrecidos", acrescenta. O representante do Ministério da Saúde responde à crítica dizendo que existem "mecanismos de controle interno" pelos quais "as pessoas podem apresentar suas reclamações ou denúncias de forma aberta e totalmente anônima". Em abril, o vice-ministro de Atenção Integral à Saúde, Saúl Recalde, informou que o Paraguai acumula uma dívida de US$ 1 bilhão com fornecedores, entre eles empresas farmacêuticas responsáveis pelo fornecimento de medicamentos. Nas áreas rurais do país, mais de 82% dos pacientes não possuem seguro de saúde Getty Images Venda de frangos, rifas e doações Mas os pacientes não podem esperar o ritmo da política. Por isso, em muitos casos, são os próprios familiares que organizam desde "polladas" — como é conhecida a venda comunitária e solidária de frango assado — até rifas e vaquinhas arrecadação para evitar o endividamento. Para Patricia Lima, o sistema de saúde do Paraguai não é apenas segmentado e fragmentado, mas também contribui para aumentar a vulnerabilidade da população, "porque uma pessoa pode cair na pobreza por causa de um problema de saúde". "No Paraguai, há muitas pessoas que se endividam para conseguir pagar um tratamento médico. Por isso, é muito alto o risco de alguém se tornar pobre por causa de um tratamento crônico, de um tratamento agudo ou de um acidente", afirma. No caso de Daniela, foi o filho dela quem ficou responsável por organizar uma rifa para arrecadar dinheiro e ajudar a pagar o tratamento da irmã. Para isso, ele recorreu a doações de colegas de trabalho, amigos e vizinhos, que ofereceram objetos pessoais para ajudar a família. "Algumas pessoas doaram suas correntes de ouro para que pudéssemos rifar e juntar o dinheiro para devolver o que havíamos pegado emprestado para comprar a cânula e todo o equipamento necessário", conta Daniela. Especialistas alertam que o problema não se limita às parcelas mais vulneráveis da população. "Todos estamos sujeitos, no Paraguai, a contrair dívidas ou empobrecer por causa de uma doença", afirma Patricia Lima. Enquanto espera que algo mude, Daniela transformou sua própria experiência em uma rede de apoio para outros pacientes e familiares que enfrentam situações semelhantes. Sua contribuição é abrir as portas da organização de artesãos, artistas e tecelãs Nivaclé, em Assunção, para pessoas que chegam do Chaco em busca de atendimento na capital e aguardam o momento de retornar às suas comunidades após um tratamento médico. "Aqui ninguém pede esmola. Nós exigimos aquilo que é de direito. Já passamos por muita coisa, lutamos demais, mas não vamos mais nos calar", afirma.
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