Golpistas mandam áudios clonados para vítimas Arquivo pessoal Um novo golpe virtual tem gerado transtorno para os sul-mato-grossenses. Criminosos estão utilizando clonagem de voz por inteligência artificial para enganar vítimas em falsas compras de veículos. O que parecia ser uma negociação comum para adquirir um carro terminou com um prejuízo de aproximadamente R$ 28 mil para o empresário Márcio Antônio Fernandes da Silva, dono de uma oficina em Campo Grande. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Segundo ele, os golpistas usaram informações sobre sua família e uma voz clonada para fazê-lo acreditar que estava negociando um automóvel com a ajuda do próprio irmão. A fraude combina técnicas avançadas capazes de reproduzir fielmente o timbre vocal de uma pessoa. A estratégia explora justamente um dos elementos que costumam dar segurança às vítimas: a familiaridade com quem está falando. Márcio conta que encontrou um veículo anunciado por um valor compatível com o mercado. O suposto vendedor afirmou estar em Ponta Porã, cidade onde o empresário nasceu e ainda tem familiares. Como mora atualmente em Campo Grande, Márcio passou o contato do irmão para que ele pudesse verificar o carro presencialmente. Foi a partir desse momento que os criminosos passaram a se fantasiar do familiar. "Entraram em contato comigo como se fosse o meu irmão, falando que já viu o carro, mandou vídeo e que estava tudo certo", relatou. Acreditando que conversava com o parente, Márcio fez um Pix de aproximadamente R$ 28 mil para pagar pelo veículo. Logo depois, os criminosos bloquearam o contato. Foi quando percebeu que havia sido vítima de um golpe. "Mesmo atento e ciente dos golpes que circulam na sociedade, acabei acreditando porque entraram em contato como se fossem uma pessoa da minha família", afirmou. Outro caso: a falsa confirmação A estudante de medicina Isabela Cardoso também passou por uma situação semelhante durante uma negociação automotiva. Na ocasião, a mãe, que mora em Dourados, estava interessada em comprar um modelo HB20 em Campo Grande e foi procurada por um homem que dizia ser coronel do Exército. Para checar as condições do automóvel, Isabela, que mora em Campo Grande, havia marcado uma avaliação em uma oficina de confiança da família. Antes do horário combinado, no entanto, a mãe recebeu mensagens, um áudio e um vídeo de uma pessoa que se passava pela estudante. Agora no g1 Na gravação com a voz clonada, o criminoso afirmava que já estava no estabelecimento, que havia vistoriado o carro e que o mecânico responsável também teria aprovado o veículo. A suposta Isabela autorizava, então, o pagamento via Pix. A estratégia quase funcionou porque o golpista utilizou dados reais sobre a oficina e sobre o profissional que costumava atender a família. A mãe, contudo, decidiu confirmar a informação diretamente com a filha. Foi quando descobriu que Isabela não estava no local e que o áudio havia sido gerado por inteligência artificial. O papel da engenhosidade social e da tecnologia Para a advogada Luiza Faccin Duarte, mestre em Inteligência Artificial e especialista em Direito Digital, a fraude baseia-se fundamentalmente na engenharia social. Segundo ela, o objetivo principal não é invadir a conta bancária da vítima, mas manipulá-la para que ela mesma realize a transferência voluntariamente. "Esse é, essencialmente, um golpe de engenhosidade social. O criminoso não precisa invadir a conta bancária da vítima: ele manipula a própria pessoa para que ela faça a transferência." De acordo com a especialista, os golpistas coletam previamente dados públicos em redes sociais, como nomes de parentes, fotografias, profissão e viagens. Em seguida, entram em contato por um número inédito, alegando terem trocado de aparelho ou estarem usando um celular provisório. A inteligência artificial entra como um multiplicador de credibilidade. "Hoje já é possível produzir áudios e vídeos manipulados capazes de reproduzir de maneira muito convincente a voz e a aparência de uma pessoa", pontua Luiza. Contudo, a advogada ressalta que o sucesso da fraude reside nos gatilhos psicológicos: confiança, afeto, autoridade, medo e urgência. A pressão faz com que a vítima concentre a atenção na necessidade de resolver um problema imediato, ignorando checagens básicas. "Não precisamos de uma falsificação perfeita, precisamos de uma explicação emocionalmente plausível", explicou. Mudança de comportamento como escudo A principal recomendação dos especialistas é deixar de considerar voz ou imagem como prova isolada de identidade. Entre os principais sinais de alerta, destacam-se: Número de telefone novo; Pedido inesperado de dinheiro; Senso de urgência incomum; Insistência para que terceiros não sejam consultados; Solicitação de transferência para contas de terceiros; Justificativas recorrentes para não realizar chamadas de vídeo; Comportamento ou tom de voz atípico; Valores muito acima do habitual. Como contra-medida, a recomendação é estabelecer uma segunda camada de confirmação: Ligar para o número antigo e seguro do familiar, nunca pelo canal da abordagem recente; Criar uma palavra de segurança familiar para situações de emergência financeira; Conferir detalhadamente os dados do recebedor no aplicativo do banco antes de concluir o Pix. O que diz o Ministério Público O promotor de Justiça Felipe Marques, membro do Centro de Pesquisa, Análise, Difusão e Segurança da Informação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (CI/MPMS), afirmou que a unidade ainda não catalogou casos idênticos com o uso específico de clonagem de voz, o que sinaliza a novidade do modus operandi. O promotor reforça a importância de registrar boletins de ocorrência mesmo nos casos em que a vítima percebeu a tentativa antes de perder dinheiro. "Você não caiu, mas outra pessoa pode cair. Através da sua informação, a polícia e o Ministério Público conseguem identificar padrões e rastrear os criminosos". Felipe também alertou sobre outras vertentes criminosas frequentes na praça, como falsos advogados, criminosos se passando por parentes no exterior e golpistas que utilizam nomes de facções para extorquir comerciantes locais mediante falsas ameaças de proteção. O que fazer caso caia no golpe? Márcio agiu rápido ao perceber a fraude. Orientado pela esposa, acionou o banco pelo aplicativo e solicitou a contestação da transferência por meio do Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Banco Central. Após quase três horas de atendimento, registro presencial e apresentação do boletim de ocorrência, ele conseguiu reaver cerca de 20% do valor perdido. O passo a passo recomendado em caso de fraude é: Contatar imediatamente o banco pelos canais oficiais e solicitar o bloqueio/contestação via MED; Registrar um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil; Preservar evidências, salvando prints de conversas, áudios, vídeos, números de telefone, comprovantes de Pix e os protocolos de atendimento bancário. Veja mais vídeos de Mato Grosso do Sul:
Novo golpe do Pix usa voz clonada de familiares para enganar vítimas em negociações de carros
Escrito em 19/09/2026
Golpistas mandam áudios clonados para vítimas Arquivo pessoal Um novo golpe virtual tem gerado transtorno para os sul-mato-grossenses. Criminosos estão utilizando clonagem de voz por inteligência artificial para enganar vítimas em falsas compras de veículos. O que parecia ser uma negociação comum para adquirir um carro terminou com um prejuízo de aproximadamente R$ 28 mil para o empresário Márcio Antônio Fernandes da Silva, dono de uma oficina em Campo Grande. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Segundo ele, os golpistas usaram informações sobre sua família e uma voz clonada para fazê-lo acreditar que estava negociando um automóvel com a ajuda do próprio irmão. A fraude combina técnicas avançadas capazes de reproduzir fielmente o timbre vocal de uma pessoa. A estratégia explora justamente um dos elementos que costumam dar segurança às vítimas: a familiaridade com quem está falando. Márcio conta que encontrou um veículo anunciado por um valor compatível com o mercado. O suposto vendedor afirmou estar em Ponta Porã, cidade onde o empresário nasceu e ainda tem familiares. Como mora atualmente em Campo Grande, Márcio passou o contato do irmão para que ele pudesse verificar o carro presencialmente. Foi a partir desse momento que os criminosos passaram a se fantasiar do familiar. "Entraram em contato comigo como se fosse o meu irmão, falando que já viu o carro, mandou vídeo e que estava tudo certo", relatou. Acreditando que conversava com o parente, Márcio fez um Pix de aproximadamente R$ 28 mil para pagar pelo veículo. Logo depois, os criminosos bloquearam o contato. Foi quando percebeu que havia sido vítima de um golpe. "Mesmo atento e ciente dos golpes que circulam na sociedade, acabei acreditando porque entraram em contato como se fossem uma pessoa da minha família", afirmou. Outro caso: a falsa confirmação A estudante de medicina Isabela Cardoso também passou por uma situação semelhante durante uma negociação automotiva. Na ocasião, a mãe, que mora em Dourados, estava interessada em comprar um modelo HB20 em Campo Grande e foi procurada por um homem que dizia ser coronel do Exército. Para checar as condições do automóvel, Isabela, que mora em Campo Grande, havia marcado uma avaliação em uma oficina de confiança da família. Antes do horário combinado, no entanto, a mãe recebeu mensagens, um áudio e um vídeo de uma pessoa que se passava pela estudante. Agora no g1 Na gravação com a voz clonada, o criminoso afirmava que já estava no estabelecimento, que havia vistoriado o carro e que o mecânico responsável também teria aprovado o veículo. A suposta Isabela autorizava, então, o pagamento via Pix. A estratégia quase funcionou porque o golpista utilizou dados reais sobre a oficina e sobre o profissional que costumava atender a família. A mãe, contudo, decidiu confirmar a informação diretamente com a filha. Foi quando descobriu que Isabela não estava no local e que o áudio havia sido gerado por inteligência artificial. O papel da engenhosidade social e da tecnologia Para a advogada Luiza Faccin Duarte, mestre em Inteligência Artificial e especialista em Direito Digital, a fraude baseia-se fundamentalmente na engenharia social. Segundo ela, o objetivo principal não é invadir a conta bancária da vítima, mas manipulá-la para que ela mesma realize a transferência voluntariamente. "Esse é, essencialmente, um golpe de engenhosidade social. O criminoso não precisa invadir a conta bancária da vítima: ele manipula a própria pessoa para que ela faça a transferência." De acordo com a especialista, os golpistas coletam previamente dados públicos em redes sociais, como nomes de parentes, fotografias, profissão e viagens. Em seguida, entram em contato por um número inédito, alegando terem trocado de aparelho ou estarem usando um celular provisório. A inteligência artificial entra como um multiplicador de credibilidade. "Hoje já é possível produzir áudios e vídeos manipulados capazes de reproduzir de maneira muito convincente a voz e a aparência de uma pessoa", pontua Luiza. Contudo, a advogada ressalta que o sucesso da fraude reside nos gatilhos psicológicos: confiança, afeto, autoridade, medo e urgência. A pressão faz com que a vítima concentre a atenção na necessidade de resolver um problema imediato, ignorando checagens básicas. "Não precisamos de uma falsificação perfeita, precisamos de uma explicação emocionalmente plausível", explicou. Mudança de comportamento como escudo A principal recomendação dos especialistas é deixar de considerar voz ou imagem como prova isolada de identidade. Entre os principais sinais de alerta, destacam-se: Número de telefone novo; Pedido inesperado de dinheiro; Senso de urgência incomum; Insistência para que terceiros não sejam consultados; Solicitação de transferência para contas de terceiros; Justificativas recorrentes para não realizar chamadas de vídeo; Comportamento ou tom de voz atípico; Valores muito acima do habitual. Como contra-medida, a recomendação é estabelecer uma segunda camada de confirmação: Ligar para o número antigo e seguro do familiar, nunca pelo canal da abordagem recente; Criar uma palavra de segurança familiar para situações de emergência financeira; Conferir detalhadamente os dados do recebedor no aplicativo do banco antes de concluir o Pix. O que diz o Ministério Público O promotor de Justiça Felipe Marques, membro do Centro de Pesquisa, Análise, Difusão e Segurança da Informação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (CI/MPMS), afirmou que a unidade ainda não catalogou casos idênticos com o uso específico de clonagem de voz, o que sinaliza a novidade do modus operandi. O promotor reforça a importância de registrar boletins de ocorrência mesmo nos casos em que a vítima percebeu a tentativa antes de perder dinheiro. "Você não caiu, mas outra pessoa pode cair. Através da sua informação, a polícia e o Ministério Público conseguem identificar padrões e rastrear os criminosos". Felipe também alertou sobre outras vertentes criminosas frequentes na praça, como falsos advogados, criminosos se passando por parentes no exterior e golpistas que utilizam nomes de facções para extorquir comerciantes locais mediante falsas ameaças de proteção. O que fazer caso caia no golpe? Márcio agiu rápido ao perceber a fraude. Orientado pela esposa, acionou o banco pelo aplicativo e solicitou a contestação da transferência por meio do Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Banco Central. Após quase três horas de atendimento, registro presencial e apresentação do boletim de ocorrência, ele conseguiu reaver cerca de 20% do valor perdido. O passo a passo recomendado em caso de fraude é: Contatar imediatamente o banco pelos canais oficiais e solicitar o bloqueio/contestação via MED; Registrar um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil; Preservar evidências, salvando prints de conversas, áudios, vídeos, números de telefone, comprovantes de Pix e os protocolos de atendimento bancário. Veja mais vídeos de Mato Grosso do Sul: