Irecê Líder: Jussara: PMs que mataram 4, incluindo um jussarense, e jogaram corpo na água agiram em legítima defesa, conclui delegado /* CONFIGURAÇÃO CORPO DE POSTAGENS */ /* FIM DA CONFIGURAÇÃO CORPO DE POSTAGENS */ -->
ao vivo

SLIDER

IRECÊ LÍDER AO VIVO

Esconder Vídeo
Abrir Vídeo
Clique aqui para enviar seu recado.
NO AR
PROGRAMAÇÃO LÍDER
LOCUTOR
(x) Fechar
Compartilhe a Líder
Facebook
Whatsapp
Telegram
Participe! Mande seu recado para o nosso Whatsapp!

sábado, 30 de maio de 2020

Jussara: PMs que mataram 4, incluindo um jussarense, e jogaram corpo na água agiram em legítima defesa, conclui delegado




Há seis meses, a agricultora Arlete Rufina, 34 anos, natural de Jussara, perdeu o seu bem mais precioso. É assim que ela define a assassinato do filho mais velho, Bruno Ricardo Rufino Benicio, 18 anos. Até hoje, os PMs envolvidos na morte do jovem não foram denunciados.

Bruno Ricardo foi morto em 8 de novembro de 2019, no Complexo do Dique, periferia de São Vicente, no litoral sul de São Paulo. O Complexo do Dique é composto pelo Dique do Caxeta e pelo Dique do Piçarro, interligados por um beco estreito.

Eram por volta das 16h30 daquela sexta-feira de novembro, quando policiais do 2º Baep (Batalhões de Ações Especiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo), que é conhecido por ter padrão de atuação da Rota, a tropa mais letal da policia paulista, mataram o jovem.

Além de Bruno Ricardo, outras três vidas foram perdidas na mesma tarde: os adolescentes Melquesedeque Romualdo dos Santos e Bruno Gabriel Rodrigues dos Santos, ambos de 16 anos, e Josemar Santos de Oliveira, 35. Todos eram homens negros.

Bruno, assim como sua mãe, é natural de Jussara, na região de Irecê. Ele só deixou de morar na cidade que nasceu para trabalhar como empacotador em Goiás, uma oportunidade de emprego que conquistou assim que completou 18 anos e, assim, pode sustentar a sua família com mais tranquilidade.

Apesar disso, a saudade apertou e o jovem decidiu voltar para Jussara, para rever a esposa Nagila Liberato Pereira, 18 anos, e seu filho de 4. Lá, montou um salão de cabeleireiro, que virou seu novo emprego.

Arlete (à dir.) ao lado da filha de 15 anos e de Bruno Ricardo, assassinado na chacina do Dique do Caxeta | Foto: Arquivo pessoal

A pedido da mãe, viajou para São Vicente em outubro de 2019. A ideia era que Bruno passasse o aniversário da mãe, em 27 de outubro, e fosse embora pouco depois de completar 19 anos, em 17 de novembro.

“Ele tinha medo de ir para o Dique [do Caxeta], porque via na televisão tudo o que acontecia e porque a irmã dele contava as histórias. A maior vontade dele era me trazer de volta para a Bahia. Ele falava que lá não era lugar para se morar”, desabafa dona Arlete.

Ações violentas da Polícia Militar no Dique do Caxeta e no Dique do Piçarro, conta Alerte, sempre foram frequentes. “Eu mesma, no barraco que morei por dois anos, já acordei pela manhã com eles quebrando lá, colocando arma na nossa cara. Eles não respeitam ninguém, a verdade é essa. Quem vive lá, vive amedrontado”, relembra.

Depois da morte do primogênito, Arlete voltou para a Bahia, para sepultar Bruno Ricardo, e nunca mais voltou para São Vicente. “Eu não tive mais coragem de voltar depois dessa barbárie que aconteceu. Por medo”, lamenta.

Além da vida de seu filho, Alerte conta que a ação da PM naquela tarde de novembro destruiu a sua família. “Eles [PMs] não respeitaram ninguém, nem eu, nem o pai. Tentamos chegar perto dele, ver como ele estava, e colocaram fuzil na nossa cara. Eles não davam informação nenhuma. O semblante deles era de felicidade quando aconteceu isso”, relata.

“Eles só foram chamar o resgate muito tempo depois. Só no Hospital de São Vicente eu fui ter notícias do meu filho. Eles deixaram os meninos morrer sem socorro. Se tivessem deixado a gente pedir ajuda, teria salvado eles”, acredita.

Ainda muito abalada, Nagila vive em Jussara com o filho que teve com Bruno Ricardo ainda aos 14 anos e lamentou, à Ponte, a morte do marido. “Foi um choque saber da morte dele. Estávamos juntos há 5 anos, criávamos o nosso filho juntos e fomos vivendo bem até esse momento… que foi bem difícil”, disse com uma pausa demorada para tentar segurar o choro. “Só esperamos justiça”, completou.

'
Delegado pediu para arquivar caso

Apesar de o laudo pericial apontar que os disparos aconteceram pelas costas, na cabeça e no peito das quatro vítimas, o delegado Luiz Ricardo de Lara Dias Junior solicitou à Justiça de São Paulo, em 11 de fevereiro, o arquivamento do caso por entender que as provas coletadas e testemunhos foram “suficientes para o reconhecimento da legítima ação do Estado”.

O inquérito foi aberto em 12 de novembro e, após ser concluído, foi remetido à Justiça e está parado na 2ª Vara Criminal da Comarca de São Vicente. O Ministério Público Estadual foi intimado a se pronunciar e, em fevereiro de 2020, o promotor Marcelo Perez Locatelli pediu detalhes do andamento do Inquérito Policial Militar.

Nos últimos meses, a promotoria solicitou outras documentações aos policiais civis da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Santos, que cuida das investigações do caso, inclusive anexo de laudos para apurar a ação dos PMs.

Agora, cabe ao MP denunciar ou não os PMs que participaram da ação: cabo José Roberto de Andrade, tenente Valter Cardoso da Costa, soldado Matheus Leite Santos, cabo Paulo de Oliveira Santos, Alessandro da Silva, sargento José Luiz Vieira Junior, soldado David Miramoto Gonçalves Correa.

Até a tarde desta quinta-feira (28/5), só os policiais militares envolvidos na ação foram ouvidos. Testemunhas e familiares não foram chamados para depor na fase de inquérito. O site A Ponte teve acesso aos “Termos de Declaração” e confirmou que, de fato, apenas os PMs foram ouvidos.

Em 12 de maio de 2020, o advogado criminalista Rui Elizeu de Matos Pereira entrou oficialmente no caso, para defender os interesses dos familiares das vítimas e, em representação, criticou a investigação policial, a tese de legítima defesa, a ausência de laudos e chamou atenção para o fato de que testemunhas não tinham sido ouvidas.

“Não se determinou a necessária oitiva dos familiares das vítimas, os quais sequer foram informados do que até então se apurou, experimentando estes uma amarga sensação de impunidade, com o fato precipitando-se no fosso do esquecimento. A necessária e relevante oitiva do adolescente sobrevivente, suposto infrator, não foi procedida nos autos”, pontua o defensor, em um trecho da petição.

O promotor André Luiz dos Santos assumiu o caso e solicitou vídeos da ação e o exame residuográfico (para detectar pólvora nas mãos) das vítimas. A perita criminal Camila Marinho Mano afirmou que não foi possível identificar “o que foi jogado no córrego” e a baixa resolução prejudicou afirmar se é uma pessoa e se ela estava viva. Ela afirma apenas que algo foi jogado no córrego.


No boletim de ocorrência, aberto três horas depois da chacina, os PMs afirmaram que agiram em legítima defesa. O documento foi registrado como morte decorrente de intervenção policial e legítima defesa (excludente de ilicitude), apreensão de drogas e armas de fogo.

Segundo informações dos policiais do 2º Baep, a operação visava “combater o tráfico de entorpecentes na região entre o Dique do Piçarro e o Dique do Caxeta”. Os policiais afirmam que foram surpreendidos, no beco do Dique do Caxeta, por oito ou dez pessoas armadas em um dos diques e doze pessoas armadas em outro, que dispararam contra os PMs. Só então, afirmam os policiais, eles atiraram de volta.

Da redação, com informações do site Ponte







Mais Notícias